No seu essencial, a história dos paramentos hoje conservados no Palácio Nacional da Ajuda antecede, em cerca de dois séculos, a abertura do monumento ao público, e em mais de um século o seu uso nos ofícios religiosos do Palácio, enquanto residência do rei D. Luís I (1838-1889).
Atente-se às palavras do tesoureiro-mor, Francisco Manuel Queimado que, em 1881, refere: a Capella do Real Paço da Ajuda é moderna, e tudo quanto possui veio da Real Capella das Necessidades.[1]
No inventário da Capella Real da Ajuda, em Abril de 1881, Francisco Manuel Queimado contabilizava 302 itens. Apesar da usura do tempo e das conhecidas vicissitudes, a colecção do Palácio Nacional da Ajuda conta hoje com 901 itens, itens de origens e tipologias muito diversas, tendo um ponto em comum: a sua pertença às colecções da Coroa portuguesa.
Nunca poderemos esboçar o “percurso de vida” destes exemplares sem nos deparamos com um acontecimento crucial da História de Portugal: a implantação da República, quando os conjuntos de alfaias litúrgicas, até 1910 ao serviço dos cerimoniais da Monarquia, perderam o seu sentido e a sua unidade.
Perdida a sua função primordial, o seu papel nos rituais litúrgicos ligados às pessoas reais, os conjuntos dispersaram-se, perdeu-se o rasto da sua proveniência ou ligação a paços reais ou locais de culto, onde permaneceram nos tempos da Monarquia.
[1] Carta de Francisco Manuel Queimado, tesoureiro–mor, para José Duarte Nazareth, oficial-mor da Casa Real, 4 de Abril de 1881, ANTT, Casa Real, caixa 6422, 1876-1889.
Francisco Manuel Queimado refere-se à capela do Paço da Ajuda situada no andar Nobre.
Autora:
Maria Manuela Santana
Conservadora /Curator
Colecções de Têxteis e de Traje
Artigo em Linha nº 15 Janeiro 2026